A INFLUÊNCIA DAS LENDAS NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO
“Na filosofia moderna, o empirismo de Hume afirma que, na impossibilidade de conhecer as coisas em si, o homem se baseia na crença ou no hábito para poder agir.”
ARANHA - Maria Lucia de Arruda - MARTINS - Maria Helena Pires: Temas de filosofia
Entende-se que é no decorrer de seus primeiros anos de vida
que a criança constrói sua índole com suas diversas peculiaridades. É na sala
de aula, nas séries iniciais que esse aprendizado acontece, entre brincadeiras
e jogos lúdicos a criança vai aprendendo a tornar-se um pequeno cidadão
praticante de bons e saudáveis hábitos.
Maurice Leenhardt considera que o mito é fundador “da vida e da ação do homem e da sociedade” - Aprender Antropologia de François Laplantine (2003)
Ao falarmos sobre o desenvolvimento
cognitivo, não podemos deixar de citar Vygotsky, um autor soviético que nasceu
na Bielorrússia, em 1896. Ele dizia que o desenvolvimento infantil era visto a
partir de três aspectos: instrumental, cultural e histórico, sendo esses
necessários e importantes para sua evolução. Quando nos referimos às lendas, podemos
incluí-las no tópico cultural e histórico, pois estas relatam acontecimentos
que ocorreram há décadas, envolvendo fenômenos ou criaturas criadas pela
cultura local.
Por mais que os personagens
principais, em sua maioria, sejam fictícios, os temas abordados trazem uma
moral de história, incentivando crianças e adultos a refletirem sobre suas
ações do dia a dia. Como por exemplo a lenda “O Pássaro de Fogo”, que passa a
mensagem de um amor proibido, que apesar dos obstáculos, não houve uma
desistência do casal, que foi punido por seu relacionamento não aceito. Isso
faz com que o indivíduo, ao conhecer a lenda, tenha o entendimento de que, às
vezes, para amar, é necessário passar por algumas situações que não sejam
fáceis para ambos.
As lendas também são um processo intrapsíquico, pois é passada de geração em geração, fazendo com que a cultura mantenha-se viva. Mesmo que a criança ou adulto tenham suas próprias características de personalidade própria do indivíduo, as lendas entram de forma normativa sendo algo comum em certas regiões, que acabam tendo o mesmo costume e crença, pois como Vygotsky citou, o ser humano adquiri seu conhecimento como resultado da interação com o meio.
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O Dr. Jung (Carl Gustav Jung, famoso psicanalista e
discípulo de Freud), disse certa vez, que é nos contos de fada onde melhor se pode
estudar a anatomia comparada da psique. Nos mitos, lendas ou qualquer outro
material mitológico mais elaborado obtém-se as estruturas básicas da psique
humana através da grande quantidade de material cultural.
Segundo a professora de psicologia da educação da PUC, Neide
Saisi, os contos de fadas respondem às nossas necessidades, angústias, medos e,
de forma inconsciente explicam a realidade.
Desenvolvimento
infantil: importância dos contos de fadas para as crianças (alobebe.com.br)
Segundo Bettelheim, que analisa as histórias mais
conhecidas, todos os problemas e ansiedades infantis, como a necessidade do
amor, do medo e do desamparo, da rejeição e da morte, são colocados nos contos
em lugares fora do tempo e do espaço, mas muito reais para crianças. A solução
geralmente encontrada na história e quase sempre leva a um final feliz, indica
a forma de se construir um relacionamento satisfatório com as pessoas ao redor.
Em Franz, os contos de fada numa visão junguiana são uma
representação simbólica de problemas gerais humanos e suas soluções possíveis,
ou seja, as representações da fantasia são tão primárias e originais como os
próprios desejos e instintos. Nos conteúdos dos contos de fada é possível ver
uma projeção dos estágios originais e arquetípicos do desenvolvimento da consciência
humana. Nos símbolos do inconsciente, nos sonhos e fantasias, encontram-se os
mesmos princípios da expressão dos mitos e contos de fada, o que, representa um
recurso fundamental no processo do desenvolvimento humano.
Partindo da biografia do inconsciente, Jung chegou aos
padrões de criação dos mitos, lendas e símbolos universais, aos quais ele deu o
nome de arquétipos e que expressam, de forma simbólica, conteúdos psíquicos de
significação emocional universal. Os mitos podem ser considerados revelações
originais da psique pré-consciente, afirmações involuntárias sobre
acontecimentos psíquicos.
Carl
Jung: mitologia e símbolos | UNIVERSO TRANSPESSOAL
Percebam que ambas as lendas falam de criação,
personificação humana, deuses brigando pelo controle humano, morte, espírito e
ressignificado simbólico, fazendo alusão aos nossos desejos, o “ser-no-mundo”,
nossas trajetórias, desejos, sonhos, concretude do abstrato para o real, angústias
que devem ser escutadas e o empoderamento de nós mesmos “por nós mesmos” na
busca pela saúde mental.



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